Sob-re-viver
Eram criaturas predestinadas. Amados de longa data, amigos de tempos atrás. Eram confidentes antes de serem qualquer outra coisa.
A vida encarregou-se de juntá-los. Em breves casualidades, em fúteis conversas aleatórias em passatempos despretenciosos.
Tinham similaridades, risos, vontades. Tinham uma distância geográfica. Suas rotinas eram distintas, enquanto um dormia o outro trabalhava, enquanto um estudava, o outro bebia, enquanto um viajava, o outro chorava, enquanto um beijava o outro amava, enquanto um vivia, o outro esperava.
Sempre viveram em comum acordo: Esta minha vida é minha, tua é tua, e quem sabe um dia nossa. Quem sabe.
Aceita? Sim.
Eu também.
Não foi destino. Não foi obra do acaso. Suas vidas tomaram rumos abstratos.
Ele não mais falava. Ela não mais sabia. Ele não pedia. Ela não fazia. Ele escrevia. Ela não perdoava.
Não perdoava o fato dele não mais dizer ‘eu te amo’. Ou talvez de dizer, mas não para ela. Para outra(s).
Tentava se lembrar quando fora a ultima vez que ouviu ele dizer aquele tão abençoado boa noite. Aquele carinho único. Aquele amor desabrochado.
Não perdoava em tão pouco tempo ele ter tirado-a de seu altar.
Mais do que não perdoa-lo, ela não se perdoava.
E decidiu se penitenciar. Borrar por completo o nome daquele que um dia brotou em seu peito.
Beliscou sua alma, suspirou seu coração. Afagou seu ego. E gritou com seu orgulho. Vou, sob todas as amarguras, reviver. Viver para mim. Vou sobreviver.
Sem voce.
