Sob-re-viver

Eram criaturas predestinadas. Amados de longa data, amigos de tempos atrás. Eram confidentes antes de serem qualquer outra coisa.

A vida encarregou-se de juntá-los. Em breves casualidades, em fúteis conversas aleatórias em passatempos despretenciosos. 

Tinham similaridades, risos, vontades. Tinham uma distância geográfica. Suas rotinas eram distintas, enquanto um dormia o outro trabalhava, enquanto um estudava, o outro bebia, enquanto um viajava, o outro chorava, enquanto um beijava o outro amava, enquanto um vivia, o outro esperava.

Sempre viveram em comum acordo: Esta minha vida é minha, tua é tua, e quem sabe um dia nossa. Quem sabe.

Aceita? Sim.

Eu também.

Não foi destino. Não foi obra do acaso. Suas vidas tomaram rumos abstratos. 

Ele não mais falava. Ela não mais sabia. Ele não pedia. Ela não fazia. Ele escrevia. Ela não perdoava.

Não perdoava o fato dele não mais dizer ‘eu te amo’. Ou talvez de dizer, mas não para ela. Para outra(s). 

Tentava se lembrar quando fora a ultima vez que ouviu ele dizer aquele tão abençoado boa noite. Aquele carinho único. Aquele amor desabrochado.

Não perdoava em tão pouco tempo ele ter tirado-a de seu altar. 

Mais do que não perdoa-lo, ela não se perdoava. 

E decidiu se penitenciar. Borrar por completo o nome daquele que um dia brotou em seu peito.

Beliscou sua alma, suspirou seu coração. Afagou seu ego. E gritou com seu orgulho. Vou, sob todas as amarguras, reviver. Viver para mim. Vou sobreviver. 

Sem voce.

re-tirar voce de mim;

Desatinado, desbaratinado. Foi assim que ele ficou ao receber a notícia. Um baque daqueles. Como aquela certeza de anos havia mudado em tão pouco tempo? Como ele não poderia ter visto todos os teus sinais? Como?

Ela simplesmente sabia. Não foram poucas as vezes onde o dialogo se tornou pesado, enfadonho. Onde o convivio deixou de ser prazeroso e mostrou-se rotineiramente leviano. Ela sabia. Fingia de todas as maneiras, mas sabia.

Aquelas mudanças haveriam de ser para o bem. De um. De outro. De dois. De todos.

Faltava ele acreditar. Cair em si. Acordar. Por bem. Pro bem.

Ele chorou, entregou os pontos. Os presentes, as malas, as fotos, as roupas, o passado.

Ela chorou, guardou os pratos. Os presentes, as malas, as fotos, as roupas, o passado.

E cada um fez o que achou mais correto.

Ele gritou;

Ela agradeceu;

Ele procurou culpados;

Ela apontou-o.

E foi assim, um dia desses. Onde nada parecia especial, onde a rotina tomava conta de ambos que tudo aconteceu.

Amanhã, com certeza acontecerá em outra casa. Em outra cama. Mas, o que nos importa?

Ontem, só voce me importava.

Ontem….


Vista me. A vista

Foi pela janela dos olhos daquela mulher que ele começou a entender o mundo. Em todos os anos, nessa mesma época, refletia, ponderava, analisava-se. E a conclusão era sempre a mesma. Inconclusiva. Uma perda de tempo, uma fuga deliberada. Um disparate. Respostas alheias, avessa as perguntas que fazia pra si. Incompreendido, ele desistia. Mais uma vez jogava para baixo do tapete toda e qualquer chance mudança.

Aquela moça germinara nele tempos atrás um sentimento perigoso. Por muitos denominado amor, por outros paixão, as vezes sem nome. Mas não era o nome que significava algo. Eram as raizes que haviam sido fincadas naquele corpo. Naquele coração. 

Ela plantou, cultivou, regou com lágrimas, podou com toques, cercou com palavras. Nos tempos de seca chorava mais do que o necessário. Tudo por um motivo. Unico e exclusivo. Os frutos. 

Ela nunca havia provado. Todas as vezes que tentara plantar tal semente, por motivos alheios a sua vontade, nunca vingara. 

Dia após dia, um ano depois. Ligou sua vitrola empoeirada, abriu a janela. Tocava Construção. E ela admirava. Sua arvore. Seus frutos. Nasciam. Pendiam maduros. Era hora de colher. Lambuzar-se.

De amor.

(texto baseado na colagem do meu querido Silvio Alvarez )

A Janela - colagem e óleo sobre tela - 18 x 24 cm - 2007 - De Silvio Alvarez

nó em ti; vira noite

Aquela dose de amor havia sido despejada de uma só vez. Em poucos instantes ele se viu fazendo o bem. Não tinha noção de como aquilo acontecera, mas era algo intrínseco. Vinha de dentro pra fora, sem motivo aparente. Tão automatico quanto o piscar de olhos ou quanto aquele desejo carnal pela esposa. Era o que estava acontecendo.

Acordou suado. Não era seu. Estava embebido naquela mulher. Pegou o primeiro copo que viu pela frente. Imaginou ser da noite anterior, quando sua boca secara instantaneamente logo após algumas palavras sussuradas ao pé do ouvido. Obrigando-o a calçar aqueles velhos e surrados chinelos até a cozinha, distante daquela cena.

Em apenas um gole, secou o copo. O liquido escorreu arranhando sua garganta, Era uma mistura de poeira, sentimentos e questionamentos.

Questionava-se o que acontecia por dentro. Aquilo derivava de uma alucinação? Estaria ele surtando? Acordar em uma cama diferente de sua própria, ja não era mais rotina. Diariamente via-se junto de sua mulher, embalando, acalentando o sono mais do que justo. Prometera em outras épocas não cometer tais erros. Não baixar a guarda, não cultivar esperanças, não semear possibilidades. 

Fazia tudo ao contrário. E de novo. 

Mais uma vez, ele apostava. Mergulhava. Sem preâmbulos, sem ressalvas. 

corra;ação

Era preciso um acerto, de contas, de prós, de contras. Um acento. Uma inflexão. Derrubar todas as premissas infundadas. Aceitar alguns dos maiores dogmas. Relevar algumas palavras. Redefinir prioridades. Descobrir a 4 mãos os caminhos tortuosos de desertos escaldantes. Pernear as loucuras da imaginação na ponta dos pés. Salientar as mais tenras verdades. Ocultar as delicadas mentiras. Tudo isso era preciso. Tudo.

Mas você não permitiu, você evitou, desandou, fugiu olhares, cortou-me a pontas dos dedos com tua ríspida esquivada. Recuou meus olhares, recusou minhas letras, retirou minha alegria. Por conta de uma fatalidade. 

Me perdeu; em contrapartida me encontrei. Sem ti. Foi o suficiente para me nortear. Os dias posteriores fizeram da cicatriz um poço de mel. Reguei cada ferida exposta com lembranças que te excluiam. Remeti minha dor interna em pouco tempo. Fui obrigado a me curar. 

E me curando, descobri meu melhor remédio. Me curando, fui capaz de curar. 

Te esquecendo, fui capaz de entender.

Te amando, fui capaz de sofrer. 

Te deixando, fui capaz de crescer.

Voltando, fui capaz de ir.

Ir pra onde sempre deveria ter saído.

Saído do coração. Pois amor que se prende dentro, se perde aqui fora.

Vem, traz o amor pra fora do peito… 

Estampa meu corpo no teu. 

Imprimi teu eu no meu.